A sábia velhice

Publicado em 26 de abril de 2022

Renato Benvindo Frata

Vi de Cícero (filósofo romano de 106 a 44 a.C.), a seguinte frase extraída da Obra “Catão, o velho, ou diálogo sobre a velhice”, – onde diz: “Todos os homens desejam alcançá-la (velhice), mas, ao ficarem velhos, lamentam-se. Eis aí a inconsequência da estupidez.”Confesso que ao lê-la, me senti desconfortado. Mais: vi-me estúpido com os sinônimos emburrecido, perplexo, atrevido e desaforado que me dei. E concordando, me fiz o questionamento: qual jovem pensa em morrer cedo? Não que conheça, o que comprova que no geral ninguém quer deixar a vida, por pior lhe pareça. A morte, pelo simples fato de representar o fim, é evitada até nos mais estapafúrdios pensamentos, salvos os suicidas a quem devemos apenas o pesar.

Resistir à velhice, portanto, seria o mesmo que pretender acertar com pedra o avião que passa, ou como disse Cícero, seria “como os gigantes guerrear contra os deuses.” Para lembrar que a velhice é parte integrante da natureza e o findar, tanto quanto o nascer, devem ser consentidos pacificamente, pois na vida tudo que nasce morrerá um dia, como exemplo “as bagas e os frutos que chegada a hora, murcham e caem por terra”, e não há remédio senão fazer dessa passagem, pequena ou grande, o melhor para nós e para com quem convivamos.

Continuando a leitura, encontrei o que muito sabemos, mas não levamos em conta: “os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a velhice, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.” Nesse filosofar, o velho deve se dirigir pela experiência e sabedoria já que não tem força nem rapidez; e aponta quatro razões que nos leva a odiar a velhice: “o afastamento da vida ativa, o enfraquecimento do corpo, a privação dos melhores prazeres e a aproximação da morte”. Ao mesmo tempo, os contesta, afirmando que: não há assuntos que, mesmo sem a força física os velhos não possam conduzir graças à sua inteligência, “pois não são nem a força, nem a agilidade física, nem a rapidez que autorizam as grandes façanhas, mas sim a sabedoria, a clarividência, o discernimento” qualidades da velhice; diz que antes de medir força, “deve-se aplicá-la com o suficiente vigor endereçada aos adolescentes, para formá-los preparando-os aos deveres de seu futuro encargo.” Ao terceiro, a privação dos prazeres deve ser vista com sopesamento “da desenfreada volúpia, da paixão obsessiva e sem controle que corrompe o julgamento, perturba a razão e turva os olhos do espírito; para viver livre dessas obrigações, da ambição, das rivalidades e das paixões de toda espécie.” Ao quarto se referiu: “como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu olhar a morte de cima. Se não acreditamos na imortalidade da alma, devemos desprezar a morte; ao contrário, se crentes somos, devemos aceitá-la e mesmo desejá-la, já que não há alternativa.”

Esquecendo um pouco o filósofo e me olhando no espelho, vejo poucos cabelos em gadanha, olhos semicerrados, pálpebras caídas, pele ressequida, frisos atirados à cara e pintas (muitas) de diversas cores e tamanhos modelando-me como a mamão além-maduro, mas sorrio e conto na aritmética caseira e em silêncio, os anos que fazem a vida: 12 da infância, 6 da adolescência, 30 da idade adulta e o resto, incontável e imprevisível, da velhice. Ou seja: a última etapa da vida ocupa quase a metade – ou mais até da soma das outras… 

Sendo assim, como não tentar conviver bem com ela aproveitando-a no máximo? 

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