Festa Noturna

Publicado em 23 de abril de 2022

Renato Benvindo Frata
Nesta noite, as nuvens no céu fizeram uma festa de arromba, com tudo a que tinham direito. O céu virou rebuliço!
As menores, talvez mais novas, brincaram de bumbo numa fanfarra completa com pratos, repiques, caixas e clarins. Não deu para perceber se haviam flautas tantos eram os reboares, e me pareceu que ensaiavam, já que os acordes não tinham uma sintonia definida. Batiam repiques desencontrados, agitados talvez por mãos de aprendizes que insistiram em tocar errado, mas tocavam.As maiores e carrancudas, agitadas e agressivas, no entanto, no mesmo quintal e no mesmo horário, instalaram rapidamente um palco convidando todos os metaleiros da terra para ali, com máximas luzes piscantes, refletores possantes e acordes extremos de guitarras e martelos sobre ferro, festarem a noite inteira.
Uma barbaridade pode-se dizer, já que nenhum outro evento barulhento – como o Loollapaloza, por exemplo, – se compara a esse. Se os colocarmos juntos, o acontecido em São Paulo pareceria um jardim de infância perto desse festival alternativo de rock, heavy metal, punk rock, grunge tão mal executados. E o curioso disso tudo, foi que essas nuvens maiores também não seguiam os espaços musicais nos acordes que o compositor, ao fazê-los, tira-os da contemplação. Pareceram extraídas da raiva, da agitação enfurecida, de uma curtição de cólera brusca e bruta, aliada à danação.
Coisa de dar medo ao mais corajoso dos homens.
Em busca de mais adrenalina, eu acho, ainda convidaram o vento para, circulando nelas e com elas, descerem à terra e fazer estrepolia.
Até parece coisa de caso pensado: a expressão de extasio do vento ao passar com sua velocidade açodada, quando resvalava entre postes, fios, casas, árvores e o que encontrasse pelo caminho ganhava assovios, gemidos e lamentos estranhos. Desses que colocam arrepios no espinhaço, secam a boca e nos dão sensação de paralisia. E mais, entre esses seus ruídos, estralares, clarões, faiscares e assopros, conseguiram esvaziar num só golpe, a enorme caixa d´água do céu.
E tudo se lavou aqui em baixo com rios de enxurradas levando de roldão folhas, papelões, pedaços de telhas, galhos de árvores e muito cisco – que os imprudentes não recolhem na devida hora.
E o pior dos piores: escolheram para fazê-lo bem em cima da minha cidade.
Ou da minha casa?
Sei lá. Estou tremendo até agora.

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