Renato Benvindo Frata
Tive um amigo, o Zé, que era misterioso ao extremo, a personificação do mistério que fazia da vida, um baú cerrado. Tudo nele era segredo guardado a sete chaves na sua solidão, o que dava pena vê-lo com o semblante entristecido, esquisito e de bobo.
Mantinha o quarto fechado, o guarda-roupas trancafiado e de sua boca mal ouvíamos bom dia, boa tarde, boa noite. Era bancário, usava gravata, sapato engraxado, unhas polidas e barba impecável. Perfumava-se. Mas não falava, não participava das conversas dos rapazes da república.Nunca assistiu conosco um jogo de futebol, nem comentou filmes de fim de semana. Não dividia o ovo frito nos sanduiches da tarde, nem emprestou ou tomou emprestado dos colegas um guarda-chuva, e nada que pudesse contar depois de tanto tempo, mudaria sua figura magra e alta, cabelos de brilhantina, perfume masculino e tristeza profunda.
O Zé era realmente um caso sério, não era tímido, nem ansioso. Talvez tivesse fobia social ou autoavaliação negativa, coisas que nos pegam e nos põe abaixo. Mas não, o Zé simplesmente não gostava de conversas.
Num dia de muita chuva, tarde friorenta e nebulosa, ele tomou de sua capa e saiu sem falar tchau. Tão comum o hábito que nem ligamos, até que por volta das nove da noite, homens de branco o trouxeram de maca. Fora atropelado, atendido no ambulatório público e, estando de alta, lhe deram carona de ambulância.
Claro que houve o corre-corre e a necessidade dele permitir que abríssemos o quarto para acomodá-lo, e aí a surpresa tirou um “ooooh!” de todos.
Sobre a escrivaninha do Zé havia uns doze vidros de perfume, cada um de marca diferente que, presos por elásticos de amarrar dinheiro, traziam pedaços de papel com nomes de mulheres: Amélia, Gertrudes, Alice, Margarida, Sandra, Irene, etc., que criou em nós, seus atendentes de primeira hora, a mais absoluta curiosidade.
O que faria com tantos perfumes? Se era um cara tão fechado que mal nos cumprimentava, o que significavam aqueles nomes grudados aos vidros?
Só depois de muita insistência é que ele, entre gemidos de dor, faixas e gessos, largado sobre a cama, pode balbuciar expressando um belo sorriso maroto – talvez o único que esboçara até então:
“– Das meninas do banco… – disse ele de olhos abaixados – os mesmos que seus maridos usam… sabem como é… nessa vida louca não se pode dar bandeira…”
Como caras de bobos ficamos nós!
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