por Renato Benvindo Frata
Tinha sete anos, chegava o Natal e instado pela professora, escrevi ao Papai Noel. Pedi bicicleta de pneu largo. Carta entregue, entendi o que era ansiedade: a sonhada bicicleta sonhada não me saía da cabeça. Queria-a de paixão. Rezava por ela. Fiz promessa, tanto era a vontade. Na véspera, fui dormir mais cedo. “– E o pai?” – perguntei.
“– Logo virá” – respondeu minha mãe que apagou a luz.
A boca se esticou em sorriso: “– Logo – pensei – o Papai Noel virá…”
O sono fluiu pulsando forte o coração, a respiração era apressada e a saliva brotava pelos cantos. Até que o galo esgoelou que o Natal amanhecia. Nem esperei pelo segundo cantar; pulei da cama, escancarei a janela derrubando os sapatos, e no quintal à minha vista, somente galinhas a catar sementes. Nada de Papai Noel. Nem da bicicleta.
Pus as mãos na boca e, constrito, indaguei: “– Por que?”
O galo respondeu com cocoricó a dizer que aquele seria o dia mais triste da minha vida. As galinhas pediam milho e lhes dei lágrimas silenciosas que pingaram. “– Por que?” – perguntava.
Corri de volta para a cama e me cobri para um choro que ninguém devia ouvir. A porta se abriu e não me mexi, não queria mostrar tristeza, mas fui denunciado por um soluço forte que espremeu a garganta. Minha ouvira o abrir de janela.
Sentou-se, me descobriu e me colocou sobre o colo num abraço tão apertado quanto macio; como se quisesse me colocar de volta no útero.
“– Meu filho…” – balbuciou – e se pôs a chorar meu choro, e soluçar meu soluço no soluçar de lágrimas. ]
“– Por que?” – eu repetia.
Ficamos um tempo amargando minha dúvida e a certeza dela, até que, afrouxando um pouco os abraços, acarinhou minha testa:
“– Seu pai não conseguiu… trabalhou para isso, mas o dinheiro foi para o aluguel. Desculpe, sei que a bicicleta era muito importante…”
“– E o Papai Noel?” – minha inocência indagou entre soluços. “– Não recebeu minha carta?”
“– Papai Noel não existe, filho, são os pais que compram presentes – falou com voz de quem pede perdão – agora levante, tome um banho, coloque sua roupinha de missa que iremos à igreja. É o dia do Senhor.”
Foi o que bastou para que um calor nascesse nos pés, percorresse meu corpo e se alojasse na face. De dedos crispados e boca babada, gritei:
“– Nunca! Nunca mais irei lá. Não resolvem nada esses merdas de santos! Tanto que pedi…”
Ela me recolocou na cama, levantou-se e saiu tão silenciosamente como entrara. Por certo teria pensado:
– “Nem vou repreendê-lo. Palavrões maiores venho falando todos os dias… porca miséria!”
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