Natureza

Publicado em 05 de outubro de 2021

Renato Benvindo Frata
Conto premiado no Femup 2021

Autoritário, o Sol não tinha amigos e nem se importava, sentia-se o maioral, mas, naquele dia, querendo pregar uma peça em alguém, se aliou numa parceria com o prepotente Vento. Reuniram-se, gabaram-se, esparramaram-se contando vantagens e tramaram. Quando Sol e Vento se reúnem e tramam, sabe-se que coisa boa não há de vir como calor excessivo, tufões e outros desastres. Então, de pacto feito, acertaram que a vítima seria a Manhã, princesa dos campos, matas e rios.

“– Não gosto dela – disse o raivoso Sol – quem pensa que é para parecer bonita?”
“– Detesto-a – confirmou o Vento – é muito ingênua, insegura e fraca!”
Resolveram nesse ato que por ela ser bela, leve, desenvolta, graciosa, ingênua, insegura e fraca, merecia um bom castigo, desses que só os maus concebem e, tomados pelo sentimento de superioridade de um e de audácia do outro, confabularam.
Falou o Sol: “– Quando ela menos esperar, você a soprará tão violentamente e eu a aquecerei tanto que nossas forças unidas a farão a mais infeliz dos seres! Acabaremos com ela e isso será muito bom… he, he, he…”
“– Combinado, deixe comigo! – exclamou o outro, assanhado – a soprarei com tanta força que ela, pega de surpresa, nem saberá o que fazer, ah, ah, ah!”
A Noite que passara sonolenta pelas horas não ouviu a conversa deles e logo, quando entregou ao Sol o relógio do tempo para que ele passasse a comandar o dia, recebeu dele um sorriso enviesado, enquanto dizia: “– Você não viu e não verá o que vai acontecer!”
Intrigada, a Noite que não era de muita conversa, respondeu: “– Partindo da sua prepotência, coisa boa não pode ser… olhe lá o que vai aprontar dessa vez…”
O Sol que era orgulhoso deu de ombros, chamou o Vento e disse:
“– Chegou a hora, vai lá e sopra bem forte, com toda a força que você tiver! Quero ver essa princesinha se estragar.” – E se preparou para esquentar seus raios.
E o Vento ventando forte tanto soprou que conseguiu levantar a saia da Manhã que desprevenida, se agarrou nas barras do vestido, mas era tarde: havia mostrado tudo. Tudinho!
E aí uma grande surpresa aos olhos dos vilões que deixou o Vento em muxoxo e o Sol de boca aberta: Ao suspender-lhe a saia, milhões de gotículas-orvalho resplandeceram brilhando sobre pétalas, folhas e capins refletindo, vejam só, um arco íris de cores aveludadas que representavam a beleza do Criador.
Coisa boa que a Noite que não é orgulhosa fez colocando-as uma a uma no Sereno, e não contara a ninguém.
Estupefato, o Sol se avermelhou de vergonha e o Vento, de rabo entre as pernas, saiu de fininho prometendo que daí por diante em todas as Manhãs o Sol seria ameno e o Vento brisa, para comporem com as gotículas a magistral beleza que temos no alvorecer.

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