Renato Benvindo Frata
Assim como está comprovado que acordar cedo faz o dia maior, também se comprova que necessariamente, não o fará melhor.
Há dia em que a cama não deveria se desgrudar das costas, ou vice-versa, mas quando o dia amanhece péssimo, tudo pode! Nem que se transforme em arrependimento. Há dia em que o ato de levantar devia ser abolido; e todas as possíveis faltas, graves, médias ou grandes que a omissão viesse a produzir, ser isenta de culpabilidade; e nunca ter contra si um dedo apontado. Nem sequer pequena ruga de desaprovação. Porque nesse dia o espelho, a revelar a péssima expressão de desânimo, será o inimigo número um. O dois, o três, o quatro…
Incomodarão a luz, o barulho do trânsito, as obrigações familiares, o tratar do cão, do gato, do papagaio, do peixinho, a escola dos filhos – especialmente seus boletins, a bronca do patrão como garantia do não aumento de ordenado, o sorriso enviesado do gerente de banco pelo saldo a descoberto, os arranhões na lataria do carro, a indisposição com a multa do vigia de vagas, a chateação com o suco entornado, o apuro da ida ao banheiro ao descobrir que não há papel suficiente e que não há ninguém à porta, ao imediato socorro, e de tudo mais que fazem do dia péssimo um dia detestável, abominável, aborrecível e todos os adjetivos que lhe deem. Falo com convicção.
Teria um dia assim nesta segunda, mas, lá pelas seis, quando me preparava para reclamar, senti sobre meu rosto uma mão macia a perambular. Cheirosa também, com os dedos pontilhando de leve, muito de leve, pontos na face, atrás da orelha, abaixo do queixo e até nos lábios.
Delícia. A bem dizer, passeava fagueira para que meu despertar acendesse luzes no cérebro entorpecido. E me fizesse lúcido.
Depois da mão, acompanhou-a um braço também de leveza e suavidade que se estendeu num abraço que, por si, aproximou um corpo também morno e macio. E perfumado, solto num roupão de seda escorregadia, que faz que esconde sem esconder o que guarnece.
E dessa forma e nessas condições, convenhamos, não há mau humor que resista, nem cara feia que aguente, nem ranço da noite mal dormida; nem qualquer ruindade que amargue a mais doce rapadura, ou azede o já azedo limão, porque o acordar nessas condições, com mão, braço e corpo, macios e perfumados, saboreando a maciez da manhã, faz com que se coloque nos lábios o formato do sorriso, e no sorriso o formato do amor e, entre os formatos, prevaleça a vontade de amar, e que essa se ilumine com os primeiros raios de sol.
Tudo em cadência, na simplicidade do tempo que consegue transformar o desprazer do levantar numa segunda, em prazer de estar em momentos de paz, que perdurará por todo o dia.
Bendita mão que perambula… solta e livre, como prova do gostar. …








