Renato Benvindo Frata
Depois de quase cento e vinte dias de seca, olhei para o meu guarda-chuvas dependurado num canto, e senti pena, estava com cara de menino sob castigo, amuado, triste, de olhos caídos, pensativo e despropositadamente abandonado, com varetas espremidas aos panos. Pareceu-me também sedento. De água de chuva que lhe dá sentido ao molhá-lo a escorrer pingando, a embebedá-lo como mãos carinhosas de amante que o alisa avivando-lhe a cor, o que me leva à conclusão de que chuva e guarda-chuva nasceram para caminharem de mãos juntas. Mostrava-se com vontade de sair, de se abrir, apavonar-se e ganhar a rua, frequentar bancos, balcões de café, escritórios e demais lugares que bem o recebem. Estava a me pedir que o levasse, mesmo não tendo chuva, a tomar ar. O sufocamento de um quarto fechado, não é fácil, reconheça-se.
Olhei-o com mais cuidado e vi que envelheceu como eu. Sua pele, como a minha, perdeu o viço e, analisando-o atentamente, notei que está um tanto desatualizado com relação à moda. Como eu. E que sua cor negra quase imperecível, masculina e pomposa, perdeu, nesses tempos loucos, digamos, a majestade, e já não impera absoluta.
Há guarda-chuvas de diferentes modelos e cores – até em arco-íris – e muito diferem dos ancestrais de mais de três mil anos. Mas, pensando bem, o velho guarda-chuva pode até ter perdido a majestade, mas nunca a dignidade. Afinal, a cor pela cor não tem o condão de eliminá-la. Nem o formato ou modelo. Nada disso lhe diminui o ar honrado que lhe é inerente. Que seja verde, azul, rosa, branco, alaranjado, vermelho, lilás, ou com todas as cores dispostas lado a lado, em listas, ele sempre será útil a quem o utilizar, seja contra o sol, ou para aparar a chuva independentemente da força que caia, com ou sem vento, intensa ou só daquelas de amainar o pó, que nem barro criam.
É certo que nos tempos atuais em que o automóvel virou bicho de estimação, não se use tanto o acessório que complementava a vestimenta há três séculos. Andar a pé se tornou uma atividade saída de receituário médico, para se denominar esportiva. O fato é que não se anda mais por necessidade de locomoção, o andar agora tem outros objetivos: ou perder a barriga, ou ganhar saúde ao coração. Ou os dois.
E a verdade é que embora démodé, o guarda-chuva é ainda aquele companheiro que sempre estará pronto a um auxílio, e que mesmo jogado num assoalho de carro, ou pendurado e esquecido num prego, no canto de um quarto, estará à mão para enfrentamento da fúria molhada que tanto incomoda… e que tanta falta nos faz.









