Cinzel do Tempo

Publicado em 12 de agosto de 2021

Renato Benvindo Frata

O bom de encontrar amigos depois de algum tempo, é a linda constatação de que ninguém envelhece sozinho. Podem ter boa aparência, mas só de vê-los tão enrugados e tão calvos quanto e com os mesmos problemas de saúde que a bendita idade distribui diariamente, dá-me sensação de paz e até confiança, de não ser o único a sofrer definhamento: o fato de não estar sozinho nessa, é gratificante, embora dividir velhice não seja tão bom como juventude, a começar pelos assuntos. Velho conversa doenças, dores, desconfortos, incertezas, fraquezas, desacertos, inquietação, cansa-se de si mesmo e não sonha. Noutro dia, por casualidade, encontrei alguns com os quais dividi lanches nos recreios, bafo com figurinhas de craques-anos 50, bolinhas de vidros e caneladas de futebol. Éramos moleques no bom sentido que a terminologia encerra, desses que têm na amizade a sublimidade do companheirismo em que um dá a unha para o outro não perder o dedo, em que a conversa ‘olho no olho’ resolve a pendenga, e que a constância da presença sedimenta melhores sentimentos; mas que a vida, com sua expertise e movimento, consegue afastar. Põe-nos barba, brilhantina, sapatos, CTPS no bolso e nos manda ao mundo. As causas do afastamento nem interessam, mas o fato em si; seja por trabalho, mudança, casamento e outras mil que se polvilham e nos separam, até que nossos olhos enxerguem esquecimento, e percam o ontem.

Nesses rumos que tomamos, tudo muda com o tempo a cuidar de cada um a seu modo: põe muita ou pouca gordura, branco nos cabelos, dentes modificados, rugas estriadas, pintas implantadas, manchas derramadas e hábitos nem tanto saudáveis. Vem-nos a sensação de que ele usa receita ímpar de entalhe com modelos de cinzel e malhete, para esculpir frisos e rugas, transformar músculos em pelancas, fisionomia triste, tez cansada, pálpebras descidas, ombros arqueados e passos imprecisos. Embora burile corpos, nos concede fisionomia semelhante, o que deixa os velhos muito parecidos. A figura do velho é sempre a mesma, a mesma roupa, o mesmo sapato, o mesmo jeito de sentar, a mesma comida à mesa, os mesmos resmungos. Uma pena.

E nem me venham dizer como Platão, a que, “a velhice é um estado de repouso e de liberdade no que respeita aos sentidos. Quando a violência das paixões se relaxa e o seu ardor arrefece, ficamos libertos de uma multidão de furiosos tiranos,” mesmo porque na sua época, ficava-se velho aos trinta e se morria, quando muito, aos quarenta.

Rever amigos é especial, tem sabor do doce que se experimentou na infância, e o reencontro festivo, um caráter de restauração de sentimentos capturados das gavetas do ontem, que de repente se abrem para o agora na expressão maior que a boca pode alargar, para, a despeito dos frisos no rosto e dos dentes, ou da falta deles, dizer em belo e pomposo sorriso; “que bom vê-lo tão jovem e saudável!”

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