Reflexão sombria

Publicado em 06 de agosto de 2021

por Renato Benvindo Frata
Perguntaram se eu tinha medo de morrer e eu disse não. Depois pensei a morte como fim e não encontrei predicados para aceitá-la. Dei-me a certeza de que não tenho medo, a morte não é fim em si mesmo, mas simples passagem. Digamos uma estrada férrea com várias estações com distâncias variadas, como as estações que tivemos em que o trem chegava, expelia o excesso de vapor para logo buscar a estação seguinte.
Segue apitando curvas, bufando subidas e chiando descidas, até encontrar a estação que nomino Desespero a quem reputo a pior estação. É dolorida, mas ele passa.
Vai no mesmo embalo para outra estação, chamada Saudade, enquanto nostalgia vivenciada, em que todos podem dominá-la, menos quem a sente. Nessa estação o trem resfolega, seu peso aumenta. Necessita de mais vapor, por isso fica ali só o suficiente para um respirar profundo, até que retoma devagar a viagem.
Para chegar à estação Lembrança, acontecimento encerrado na esfera do vivido, a confirmar que lembrança é uma saudade meio mole, meio lisa, que aperta sem machucar, amarra sem dar nó, abana sem ventilar. É uma saudade que não fere como feriria se fosse somente saudade…
Na sequência, esse trem bufa no rompante que tinham os trens a carvão e sai fumegando para a quarta estação, a Desesperança, que é uma despreparação de tudo que se construiu. A essa altura, Saudade e Lembrança começam esfarelar.
Viu com a morte não é um fim? O que parecia, continua, embora em pensamento, e a estação Desesperança regurgita um quê de tristeza e outro de descrença. Quando o trem chega a essa estação, temo bufar com som de desapego – ele se aproxima da última estação, o fim da viagem pontilhada por estações-sentimentos. É assim que se dá.
Com apitos nada eufóricos, chega à estação Esquecimento, a mais triste do dicionário relacionado à perda. Essa sim é o fim de tudo, pois quando se esquece, tudo apaga!
Não saberia dizer quanto tempo o trem gasta nessa viagem sombria, mas há de variar para mais ou menos de acordo com o sentir daquele que ficou. Se o que se foi fez por merecer essa demora, mais devagar o trem andará. Se não… babau! O que me leva a concluir que o melhor mesmo é ficar vivo, torcendo para que nunca substituam a maria-fumaça por um trem-bala…

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