Com superlotação e queda nas receitas, Santa Casa vive momento delicado

Publicado em 23 de junho de 2021

Hospital vive maior crise dos últimos 19 anos. Além da pandemia,
a ala geral está trabalhando acima dos 100% e as receitas caíram

Diretoria-Santa-CasaA Santa Casa de Paranavaí vive um de seus mais difíceis períodos. Hospital de referência na região para a Covid e outras enfermidades, a instituição tem operado no limite e não são raros os momentos em que a taxa de ocupação das UTIs da Ala Covid e a Geral Adulta passa dos 100%, havendo a necessidade de usar equipamentos da reserva técnica (usados para substituir quando um equipamento acusa defeito).No Pronto Socorro, a situação não é diferente. Com 14 leitos para atendimento, a unidade chegou a ter, semanas atrás, até 26 pacientes sendo atendidos, estabilizados e “internados” a espera de um leito. A permanência de um paciente em pronto socorro é entre 6 e 12 horas. Mas alguns já chegaram a ficar mais de um dia a espera de uma vaga. Já houve casos que a espera demorou 72 horas.

“O momento é muito delicado. Faltam vagas, não temos condições de ampliar leitos por falta de espaço físico e de profissionais, as receitas têm caído, as doações reduziram muito, nossa equipe médica e de enfermagem está esgotada e ainda temos o desafio de abrir a Unidade Morumbi. Vai ser um grande desafio atravessar este ano”, diz o diretor-geral do hospital, Héracles Alencar Arrais.

A situação vem preocupando, também, o diretor técnico do hospital, Jorge Pelisson. “É muito difícil, quase que humanamente impossível, dar atendimento a 26 pacientes, num ambiente e com uma equipe para atender 14”, diz ele em referência ao Pronto Socorro. Pelisson tem apelado para que os hospitais da região procurem manter seus pacientes na cidade de origem. “A transferência para a Santa Casa, principalmente através do SAMU, tem que ser bem pensada. Dependendo das condições, um hospital menor pode oferecer um atendimento mais adequado do que um maior, mas superlotado”, analisa ele.

O crescimento dos casos de urgência/emergência é, na avaliação de Pelisson, consequência da pandemia da Covid-19. Segundo ele, desde que começaram os registros de casos do coronavírus no Brasil, muitos pacientes, com sintomas leves, evitaram procurar médico para fugir de ambientes com maior possibilidade de contaminação: hospitais, consultórios e postos de saúde. O resultado é que, agora, quando o paciente procura ajuda, já está em estado grave e precisa ficar internado.

Outra situação é decorrente da suspensão das cirurgias eletivas. O adiamento de cirurgias que podem ser programadas, por não ser urgentes, foi determinado pela Secretaria de Estado da Saúde (SESA) e tem por objetivo garantir leitos para os pacientes de Covid. Mas o que era uma pequena inflamação evoluiu e o paciente acabou precisando de cirurgia de urgência usando leito clínico e, às vezes, UTI.

IMPACTO FINANCEIRO – Todo este cenário tem impacto sobre as condições econômicas do hospital. A principal delas é a suspensão das cirurgias eletivas, que atingiu também as que são realizadas através de atendimentos particulares e por convênios. Segundo Marcelo Cripa, gerente financeiro do hospital, são estes atendimentos que geram superávit para cobrir o déficit provocado pelo SUS. De janeiro a abril deste ano, a receita do atendimento particular e de convênio já caiu entre15% e 20%.

Enquanto cai a receita, o custo do hospital aumenta. Cripa estima que, no geral, o custeio do hospital sofreu um aumento entre 30% e 40%. No primeiro quadrimestre deste ano, por exemplo, o custo de materiais médicos e medicamentos subiu 43%; as despesas com alimentação e papelaria subiram 16% e nos exames o aumento foi de 45%.

As despesas estão em alta e não há novas fontes de recursos. O que mais tem alimentado o déficit financeiro da Santa Casa é o alto consumo de medicamentos usados na UTI, oxigênio, seringas, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como luvas de procedimento, máscaras cirúrgicas, gorros, propés, aventais descartáveis etc, e produtos de limpeza e desinfecção. “Estamos usando mais estes produtos e os preços deles se elevaram muito em relação a antes da pandemia”, constata Marcelo Cripa.

E não há alternativa de curto prazo para tentar recuperar a normalidade. “Temos recebido muitas doações. Elas são extremamente importantes e, de certa forma, é o que garante que o hospital permaneça de portas abertas. Mas em relação ao ano passado, quando começou a pandemia, as doações caíram muito”, atesta Héracles Arrais.

A crise da Santa Casa é a maior dos últimos 19 anos. Em 2002, sem recursos, sem crédito e com os funcionários em greve, o hospital quase fechou. Não estamos nesse nível, mas a situação é crítica”, adverte o diretor.

UNIDADE MORUMBI – Além de conviver com a superlotação e a falta de recursos, os gestores da Santa Casa ainda têm que trabalhar para viabilizar a abertura da Unidade Morumbi, cujas obras físicas estão concluídas e os equipamentos comprados. “Assim que receber autorização para funcionar, que depende basicamente de como a unidade será custeada, precisamos de 60 dias para abrir as portas”, explica Arrais. Este período é para contratar funcionários (começa com 250 e, depois passará de 400) e montar os equipamentos, o que ainda não foi feito para não perder prazos de garantia.

“Temos feito nossa parte, mas não podemos abrir a Unidade Morumbi sem antes assinar o contrato de custeio do hospital”, sublinha o gestor. A dificuldade é que, na Unidade Central, o déficit provocado pela tabela do SUS é coberto com recursos dos atendimentos particulares e de convênios. Mas no caso da Unidade Morumbi, o atendimento será 100% SUS, não deixando válvula de escape para buscar outra fonte de receita.

A Unidade Morumbi terá 108 leitos, dez dos quais de UTI, bloco cirúrgico e abrirá a possibilidade de atendimento de novas especialidades. Na nova unidade poderá ser ofertado serviços na área de oncologia. E com adequações, que serão possibilitadas por causa do novo espaço, poderá ser implantado o serviço de hemodinâmica (exame que identifica obstruções das artérias coronárias ou avalia o funcionamento das válvulas e do músculo cardíaco com a finalidade de diagnosticar uma possibilidade de infarto agudo do miocárdio ou determinar a exata localização da obstrução que está causando este infarto).

A abertura da nova unidade é aguardada com ansiedade pelos prefeitos da região. Isto porque a fila de espera por cirurgias eletivas que são realizadas na Santa Casa está aumentando por conta da pandemia. Os prefeitos lembram que antes mesmo da chegada da Covid o problema já existia e agora se agravou. Como a nova unidade vai ampliar a capacidade de realizar cirurgias para os pacientes de toda a região, os prefeitos vêm sua abertura como a solução para uma antiga demanda dos municípios.

O orçamento da Unidade Morumbi é de cerca de R$ 4,5 milhões. “Ainda não está definido como será custeado a unidade. Estamos dependendo disso para definir a abertura da Unidade Morumbi”, diz Arrais.

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