Minha mãe se chamava Carmen, morreu com quase 90 anos e deixou uma família de oito filhos, dos quais seis vivos, são trabalhadores, constituíram famílias e disseminaram os ricos conhecimentos que receberam, pois a filosofia de mãe somente é concebida a concebe, letradas ou não, ricas ou pobres, negras ou brancas, altas ou baixas, gordas ou magras, tenham olhos castanhos, verdes ou azuis. O próprio nome Carmen possui significado especial: “vinha de Deus”, “canção”, “melodia” ou “poema”.
Ensinou-nos – e usava sua pá de madeira (com a qual mexia diariamente a polenta que nos dava) para que soubéssemos e aprendêssemos o certo e o errado. Nunca precisou de empregada doméstica e nem podia pagar por uma, nunca corrigiu uma tarefa nossa pela obviedade de seu analfabetismo, mas exigia que os irmãos mais velhos o fizessem. Sabia dar a cada um o melhor pedaço do frango de domingo, reservando para si os pés e o pescoço. Morreu em paz, no colo de minha mulher depois do banho, durante os curativos de suas escaras. Foi em paz com a vida, sorrindo, sem dever um tico a não ser pelo carinho que recebeu. Belos exemplos deixou.
Pois bem, hoje temos uma xará sua no STF, a Dra. Cármen Lúcia, Ministro Presidente do órgão mais importante da justiça brasileira e merecedora de todo nosso respeito pela integridade que tem demonstrado no trato da coisa pública. Não lhe sei a idade, mas a imagino com mais de sessenta, portanto, experiente. Seu corpo é magro como o da Carmem que me amamentou, seus olhos são castanhos como os dela, suas mãos estampam veias azuis exatamente como as dela mostravam. Não sei da família desta Carmem, se tem marido e filhos. Deve tê-los e, com o belo currículo que possui – vários livros editados, palestras proferidas, títulos conquistados, cargos assumidos com distinção especialmente este que galgou por mérito, deve tê-los deixado felizes e orgulhosos; da mesma maneira que a nossa Carmen fez com o currículo que a vida lhe permitiu.
Não há necessidade de dizer mais sobre a postura da Carmen de casa, que nos honrou até o último suspiro; receita que desejaria às outras Carmens deste país tenham o nome que tiverem. Mas, que pena, a do STF cometeu um grande atentado contra a instituição que representa misturando justiça com política e, com efeito de uma bomba potente, fez trincar o alicerce da Justiça Brasileira manchando não apenas seu currículo, mas o esteio do Poder Judiciário, um dos pés do tripé que sustenta nossa tênue democracia, lembrando que os do Executivo e do Legislativo estão enlameados e jamais serviriam de amparo – a não ser pelo compadrio.
Teria sentido medo da força de Renan, o Senador todo-poderoso? De sua força em razão do Projeto de Lei que responsabiliza atos de juízes? Ou somente terá atendido – com a permissão da palavra – pedido de favor – dos cochichos de carcomidos ex-presidentes e do atual e cambaleante ocupante do cargo e, imediatamente e da mesma forma combinado com colegas a saída mezzo e mezzo que manteve o Senador no cargo, apesar de envolvido em falcatruas? Por que não se preocupou com o magistrado que ordenara a saída do Senador da Presidência do Senado? Mais: como fica perante a lei, a ofensa dele ao cargo público de Oficial de Justiça, em especial às pessoas que o ocupam? Não foi essa decisão pensada e medida como devem ser as decisões de uma Suprema Corte? Ou, como diz a imprensa, desvendou-se os olhos de Têmis e destruiu-se sua espada?
A história pode até demorar em registrar os malefícios da grotesca peripécia, mas minha memória e por certo a deste povo que crê na lisura da Justiça, ficará tatuada como a carne cheira quando queimada a fogo.
Sorte da Carmen da minha casa que já se foi…
…








