Solilóquio com carquilhas

Publicado em 21 de julho de 2021

Renato Benvindo Frata
Fosse mais sofisticado diria que possuo carquilhas. Muitas. Mas como simples cidadão em uma fase da vida que me permite conversar sozinho em solilóquio, me conformo em tê-las como rugas confidentes.
Sim, dessas que decorrem da idade por causa dos agastamentos do envelhecer e outros sentimentos menos nobres, mas preocupantes, presentes no dia a dia ao longo da existência.

As rugas que envergo são pensadoras, planejadoras, que se contraem e se esticam. Quando penso, falo, rio, ou me guardo em tristeza elas se ativam, engordam, se tornam lustrosas quais mandarovás resplandecentes da luz brotada dos pensamentos, e ficam em leque mostrando-se como sol nascente.
Acho que é por isso que tendo tudo para não gostar delas e de as saberem não bonitas, desnecessárias e desprezáveis, as deixo aí não como enfeite, mas como símbolo. De que, nem sei.
Não consigo me ver sem elas riscando indelével e por inteiro o rosto, marca da minha realidade. Também não me constranjo em falar delas e nem com elas, são companheiras que me seguem as vinte e quatro horas do relógio com frio ou calor, ventando ou não, chovendo ou chuviscando, do inverno à primavera, completando o ciclo com outono e verão.
Como confidentes dividimos angústias e segredos, ansiedades e vontades, irritações e alegrias. São digamos, iguais ao anjo da guarda com quem me deito e levanto – (Bendito seja o Espírito Santo) e chegaram de manso, silentes, tateando veludo na discrição. Na verdade, eram uns risquinhos à toa na pele e, como não me importei gostaram e, fincando se eternizaram na minha finita eternidade. Só irão quando eu me for.
Hoje comandam meus neurônios guiando-os para aqui e ali como faz a professora na arrumação da fila. Isto é, impõem disciplina aos pensamentos, aos gestos, aos modos de falar e olhar; limite que segue a ordem das coisas nos trejeitos que a vida permite.
Senhoras da posse em usucapião registrada no livro da vida, não há como expulsá-las nem se quisesse, o que não é o caso. Possuem raízes profundas e são plissadas, vincadas como um lindo vestido de organdi rosa que minha namorada usou e deu à minha festa de formatura do segundo grau o esplendor, transformando-se ela também em rainha daquele evento e do meu coração.
Mas falemos das rugas: que são dinâmicas, estáticas, marionetes e bigode chinês, todas de expressão que convivem saboreando a lealdade entre uma confidência e outra, um sorriso e outro, um cuidado e outro.
Quando se adota uma ruga como adotei, ou duas, ou tantas brotadas como bananeiras que se espalham em touceiras, não há botox que dê jeito, sem quebranto para minar esse mútuo amor perene.

Alda

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