Renato Benvindo Frata
O circo chegou com alvoroço, num desfile barulhento. Os artistas sorriam e gesticulavam beijinhos, tchau, acenos, enquanto cornetas, bumbos e clarinetas tocavam velhas marchinhas em som estridente, a tirarem pescoços curiosos pelas janelas, e saídas ao quintal.Em tempo sincronizado, quando a banda parava, grudado a um megafone um homenzinho de pijama listrado gritava, convidando o povo, e, nesse meio, com gestos sutis, bailarinas maquiadas, vestidas em maiôs, meias de renda e sapatilhas, ensaiavam passos sobre um tablado no caminhão, enquanto homens grudados num trapézio exibiam os bíceps às moçoilas, que suspiravam. O domador de leões não deixava por menos – estralava seu chicote à molecada que corria espevitada, e os palhaços, três ou quatro, faziam palhaçadas incentivando a cantarmos num coro solene, o bordão: “– E o palhaço o que é? É ladrão de muié!
Nesse dia fomos ajudar carregando cadeiras, lavando e espanando móveis em troca de ingressos, e gostei tanto de estar ali que me esqueci do horário da escola. Acho que se me lembrasse, também não voltaria. A bailarina Magda me pediu ajuda e fiquei. Era a responsável pelos pirulitos, e ali, numa cozinha improvisada, passamos o dia com ela ainda maquiada e com o maiô que desfilara. Quem, nessa condição, não ficaria?
A tarefa, que seria de pouco tempo, se estendeu pela tarde e, terminada a receita, levou-me ao camarim. Sem parcimônia se despiu, lavou-se e voltou a se maquiar, e a vestir novo maiô. Para ela isso devia ser corriqueiro, para mim, no entanto, que nunca vira uma mulher nua, foi boa novidade. De vidrar olhos. Estando arrumada, aproveitou para pintar-me de palhaço com nariz vermelho, face branca, bigode e cavanhaque pretos. Deu-me ingressos e me mandou de volta, com o pedido de que não me atrasasse para o espetáculo.
Só aí percebi que o sol se punha, e que minha mãe devia estar uma fera, por eu ter faltado à aula. O que se faz numa situação dessa? Foi o que fiz: entrei em casa com cara de palhaço, e gritei: “– E o palhaço o que é?” – Bordão que naquela hora, não pegou bem.
Sem nada responder, catou a pá de madeira de mexer polenta e, segurando-me pelo braço contemplou-me com várias lambadas, lembrando-me que compromisso de escola não se troca por um circo à toa! Nem preciso dizer o quanto doeu, e que se bem procurar, devo ainda ter no corpo algum vergão daquela pá, para dizer que entre bordão e bordoada, sempre haverá um aprendizado. Mesmo que doa, pacas!
Quem não viu coisa assim perdeu muito da alegria da vida, porque o circo na minha infância tinha um quê de mágico, de genial, de mirabolante, de enigmático. De coisa fantástica, “diferente do circo da vida que nos leva a ficar pendurados no trapézio da insegurança, no sorriso mentiroso do palhaço, na corda bamba do equilibrista .”









Podem ter sido doloridas as pasadas mas a visão da mulher nua, numa primeira vez, para um garoto valeu a pena ( pena mesmo)!
A estória também foi deliciosa! Abraços