Renato Benvindo Frata
1964 caminhava se agarrando na beirada do tempo, ou nas bocas de canhões e fuzis, como se dizia em razão da Revolução de 31 de março, enquanto um grupo de nós, do primeiro ano do Colégio Comercial, subia os degraus da escada de aventuras sem a preocupação com política. Escalava-a às pressas, sedento; a juventude sempre teve pressa e a nossa não era menor, mesmo porque o tempo livre era restrito.
Todos trabalhávamos durante o dia e, à noite, saíamos da escola por volta das 22:45 para, no tempo entre o dormir e o levantar para o trabalho, nos divertir no único lugar que tínhamos: a zona, cujas luzes vermelhas nos atraíam quais mariposas sem asas, e nos fazia rodeá-las levados pelos hormônios aflorados.
A Vila Paris fervilhava com as ruas repletas de charretes de aluguel e de carros de praça com chauffeurs que levavam e traziam homens. E tudo era festa, alegria que se estampava nos rostos e gestos, salvo alguns contratempos por ciúme ou dinheiro – e a falta dele, que se resolvia com tabefes e beijos, em seguida.
Mas éramos menores de idade e ali só se permitiam adultos, razão mais que justificada para que procurássemos ingresso às boates com algum “molha-mão” aos porteiros, que diligentes, nos colocavam atrás de cortinas ou desvãos longe da vista dos policiais, de onde assistíamos com os pescoços espichados, sem consumir as obrigatórias doses de conhaque, uísque, vermute e cerveja, a espetáculos de strip-tease, e esperar que lá pelas tantas, algumas damas sem companhia nos acolhessem para aconchego gratuito.
De olhos inchados e corpo pedindo mais cama, despertávamos por volta das cinco para cortar, a pé, o areião das ruas, e entrar em casa sem fazer barulho. Não havia maldade nessas incursões, mas necessidade de extravasar sentimentos; nem desassossego com o fato de frequentarmos lençóis amarfanhados e úmidos em que corpos outros, antes de nós, se reviraram, porque a juventude, como disse Irvin Yalom, “deve-se, ao fato de estarmos subindo a montanha da vida e não vermos a morte que nos aguarda do outro lado.” Tudo vale quando se é jovem.
Os anos passaram e lá vão quase sessenta das noites passadas sem dormir em meio à algazarra, ou de dormidas diminutas com o sono entremeado de carícias em desconforto de colchão de capim, necessárias a nosso ver na divisão de prazeres, alegrias rebuscadas de tristezas, despudores misturados a pesares, para lembrar que da montanha que se buscava galgar na juventude, os da época se encontram quase no topo. Falta pouco para vermos do outro lado.
Renda-se, pois, à Vila Paris de áureos tempos, amenas lembranças imersas num ontem em que casas de prostitutas serviam para homens dizerem sua masculinidade, e, às senhoras, dignas de coração que ali sobreviveram com a venda temporária de seus corpos, o desejo de que tenham encontrado vida melhor.
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Esta é o que eu chamaria de uma puta crônica.